Morreu, na noite da última sexta-feira (30), João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, criador da Gurgel Motores e o principal entusiasta da indústria aumobilística com capital 100% brasileiro. O empresário estava internado na unidade Itaim do Hospital São Luiz, na cidade de São Paulo. Segundo a assessoria de imprensa do hospital, a hora do óbito e a causa da morte não serão informados a pedido da família, mas sabe-se que Gurgel sofria do Mal de Alzheimer.
Nascido em Franca, interior de São Paulo, no dia 26 de março de 1926, Gurgel se formou engenheiro pela Escola Politécnica de São Paulo, e sua primeira investida no ramo industrial foi em 1958 com a criação da Moplast, empresa especializada na moldagem de plásticos. Após ter obtido uma pós-graduação nos Estados Unidos e trabalhado na GM, ele fundou a Gurgel Motores S/A em 1969, tendo como principais características não aceitar investimentos estrangeiros e o uso de carroceria de fibra de vidro nos projetos dos automóveis.
Sob o lema “Tecnologia Inteligente”, Amaral Gurgel não abria mão de algumas características nos carros que saiam de sua fábrica sediada em Rio Claro, no Estado de São Paulo, como a tração traseira. Segundo ele, “as rodas da frente são para direcionar e as traseiras para dar tração ao carro”. Nas décadas de 1980 e 1990, a marca focou sua atuação nos city cars e lançou a gama BR 800 e Supermini. Na época, o Supermini era equipado com o motor Gurgel Enertron de 4 tempos com 2 cilindros opostos, 800 cm³ de cilindrada e 36 cv de potência. Entre os luxos do modelo estavam a pintura em dois tons (com a parte inferior prata), rádio FM, bancos traseiros rebatíveis e relógio analógico no painel.
Visionário, Amaral Gurgel criou em 1981 o Itaipu E-500, primeiro veículo elétrico construído no Brasil, e antecipou uma tendência fortemente difundida nos últimos anos. O fim da Gurgel Motores ocorreu na década de 1990, quando a montadora estudava a criação e produção de veículos ultracompactos e baratos do projeto Delta, o que, segundo a fabricante, gerou uma forte represália das grandes indústrias multinacionais do setor já instaladas no país.
Em um documento de setembro de 1993 chamado “A verdade sobre a situação atual da Gurgel”, a companhia cita que “a atitude dos governos do Ceará (onde uma nova unidade seria construída) e São Paulo negando a participação prometida ou qualquer empréstimo adicional, fez com que as pressões contra a Gurgel aumentassem de forma absurda, desencadeando em curto prazo um processo pelo qual as demais instituições financeiras e fornecedores passaram a restringir gradativamente o crédito da empresa”.